domingo, 6 de outubro de 2013

contradiction

"when I first met you, I felt a kind of contradiction in you. you’re seeking something, but at the same time, you are running away for all you’re worth."
-Haruki Murakami, Kafka on the Shore


sábado, 27 de abril de 2013

ringraziare



sei que prometi nunca mais te escrever, mas os meus músculos recusam controlar os meus dedos e a minha mente ignora os meus pedidos de cooperação. na verdade, és a única pessoa sobre a qual consigo efectivamente escrever, para grande desassossego meu. desconheço a razão mas desconfio que seja porque a escrita sempre foi o meu mecanismo para que, de certa forma, estivesse mais perto de ti. mesmo quando quilómetros nos separavam, eu mergulhava em ti tão profundamente que conseguia criar uma pobre e efémera realidade em que estavas a meu lado. quase como uma espécie de transe. penso que o meu corpo já te entranhou de tal forma, que te irei amar sempre, mesmo quando amar outro alguém. deixaste-me marcas e espaços vazios que são a constante memória que quando te perdi, parte de mim desapareceu também e nunca a vou recuperar. já passaram anos desde a última vez que te vi, mas não existiu desde aí um único dia em que não me cruzasses a mente. por vezes questiono se também eu cruzo a tua... rapidamente desanimo pois calculo que devem ser ínfimas as vezes que saltito pelo teu consciente e te faço recordar que alguém te pode amar incondicionalmente; mesmo quando te tornas num monstro impiedoso totalmente desprovido de humanidade. 
também eu já segui em frente, sabes? embora seguir em frente contigo implique que parte de mim fique para sempre condenada a olhar para trás com melancolia, fi-lo. tenho aprendido a amar, embora de forma totalmente diferente. nunca amarei como amei a ti e nunca acharei que encaixo como peça de um puzzle, mas não tenho feito um mau trabalho. não posso esperar mais que isso, seria irrealista e desajustado. tenho que deixar a vida ensinar-me a ser feliz de uma forma completamente oposta à que achava como verdadeira. tenho de aprender a viver sem ti.. mas viver meia-viva, pois a outra metade foi contigo. de qualquer forma, ''melhor queimar do que apagar aos poucos''.

queria que soubesses que os teus olhos ainda me deixam entorpecida. que eles, negros como uma noite sem lua, ainda me fazem sentir presa e incapaz de reagir. me fazem sentir protegida e desprotegida ao mesmo tempo, a doce contradição a que me sucumbiste desde o início e sempre me pareceu tão certa. tenho saudades da tua voz impetuosa, dos teus cabelos de Outono, do teu sorriso e do teu semi-sorriso também. tenho saudades dos teus braços, do teu cheiro e da curva dos teus lábios. tenho saudades de quando acreditava que um dia os ponteiros do relógio iriam congelar e nós iríamos criar um mundo só nosso e eterno... e que aí nos fundiríamos um no outro e viveríamos numa simbiose imperfeita ao nosso jeito perfeito. mas é impossível sobreviver na ilusão, na incerteza e na incoerência e eventualmente o corpo consegue arranjar um antídoto às esperas intermináveis.

eu não posso dizer que sei muito sobre amor, mas sei que ele é a força mais poderosa do Mundo. não existe nenhuma certeza tão certa como a certeza de amar alguém. quando é amor, não deixa de o ser. e eu sempre soube isso. o tempo vai passar e as nossas vidas irão mudar drasticamente. as crianças que éramos no início já cresceram e já se moldaram ao mundo real. provavelmente o teu corpo vai mudar de forma e os teus cabelos negros vão lentamente abrir espaço a delicados fios de neve. e, quando a lua repousar no seu ponto mais alto, vai ser ela que te vai escutar a tocar guitarra e a vibrar o ar. vai ser ela que vai presenciar como estremeces com as notas musicais e como os teus olhos mudam de cor à medida que acaricias as cordas. e eu, estando do outro lado do mundo ou deste, vou continuar com a mesma certeza que te amei da forma mais intensa e bonita que conheço. e que valeu a pena.

se um dia alguém me amar pelo que sou, ama-me pela pessoa em que me tornaste. por isso, isto são mais que despedidas, são agradecimentos. não voltarei a tentar esquecer-te, pois não esquecemos quem foi toda a nossa realidade um dia. acho que continuarei a escrever sempre que sentir que preciso desta proximidade irreal de ti, de reunir forças para encarar o que a vida oferece. mas, finalmente entendo o que dizem. quando se ama verdadeiramente alguém, temos de as deixar ir e viver livremente.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

mil quatrocentos e sessenta dias


já vivemos dez meses desde a última vez que te escrevi.
parece que perdi a habilidade de juntar as palavras e as conciliar de forma a expelirem tudo o que sentia por ti. na realidade, o dilema será mesmo o meu sentir. é um oco intimidante que apenas por vezes se cobre de latejos e impulsos incertos. agora, quando reconheço a distância que separa os nossos corações, já não lamento que o meu futuro não conte com a tua presença.
sei que jamais experimentarei o calor dos teus braços ou ouvirei a tua voz só porque sim, mas já não dói. algo roubou o lugar da tristeza e as memórias já não me deixam tonta. nunca pensei que fosse possível ficares latente e unicamente seres revivido em introspecções ou causalidades. é estranho saber que perdemos parte de nós, mas não sofremos com a sua ausência. talvez seja um mecanismo de defesa por sabermos que jamais alguém conseguirá preencher esse espaço, que jamais permitiremos que alguém enrole o nosso âmago e faça dele objecto da sua vontade.  outras pessoas irão preenchendo outros espaços e recantos, deixando a sua marca impregnada em mim. mas o teu permanecerá sempre desabitado e um dia optarei por me esquecer que ele existe. 
é tormentoso reler o que em tempos redigi. absolutamente desnorteante admitir que me entreguei daquela forma. admitir que descansei nas tuas mãos por tanto tempo. que me resumi a nada numa espera interminável e deixei que as tuas palavras me lacerassem como facas afiadas. era tão doida, tão incansável, tão insana,… tão tua. e tu eras o sol impetuoso no qual arrisquei tocar tantas vezes, mesmo sabendo que me irias queimar. eras eloquente, taciturno, impulsivo… mas nunca meu. tu nunca pertencerás a alguém, mas deterás quem a tua vontade escolher. e sei que sabes que assim nunca serás nem farás ninguém inteiramente feliz. e eu mereço sê-lo.
nunca me tinha sentido tão viva até ao momento em que me desprendi de ti. não posso negar que me tornaste mais débil, indiferente e fria. mas também aprendi que, mesmo quando alguém te calcou e esmiuçou, existe sempre outro alguém que está na tua vida porque te vai fazer feliz. a vida pode mesmo ser um ciclo vicioso. as pessoas entram nela durante algum tempo mas depois abandonam-na porque a felicidade, como água fugaz, tenta escapar por entre os nossos dedos e mantê-la exige esforço. algumas das pessoas que arriscam penetrar no teu ciclo, não temerão esse trabalho. sussurrarão as palavras certas ao teu ouvido e os seus abraços far-te-ão sentir em casa. e se alguém negou o teu esforço no passado, estarás melhor preparado para saber quando tens perante ti alguém que merece que te entregues de novo. ensinaste-me que já não preciso de ter medo. essa entrega valerá a pena, pois essa pessoa unirá o seu esforço comigo e estarmos juntos vai ser tão simples. vamos estar exactamente como devemos estar.
já não te pertenço e tu já não me queimas. já não és o meu sol. és apenas memória de um passado doloroso que partiu e eventualmente dará lugar a algo melhor.
mil quatrocentos e sessenta dias depois, (penso que) esta é a última vez que te escrevo.

domingo, 20 de janeiro de 2013

fugas, neuroses e recalques

faz muito tempo, petrifiquei o coração. deixei-o endurecer para que ele não continuasse a insistir em me imobilizar diante as mais diversas circunstâncias. para que parasse de me verbalizar quando eu deveria ser muda, surda e por vezes cega. por isso noto que te posso etiquetar de erro. um tropeção, mas que eu cometeria de novo. gosto das tuas crónicas. das emoções contraditórias, confusas. de ler entre-linhas e de esconderes nelas o que não quero ler.
a vida é feita de momentos e de escolhas. contigo foi extremo. vi todos os meus anseios numa figura só - o acre mais doce e o mel mais amargo. por isso quebrei as minhas juras, os meus protestos e deixei-te entrar silenciosamente – para não despertar a razão. foi por isso que, mesmo efémeros, os instantes em que foste meu sempre me converteram numa insana pandemia e na incessante ânsia de querer mais. sei que seriamos bons amigos. tenho a certeza que seriamos ainda melhores inimigos. mas optei que fosses esta incerteza sem nome, sem tempo e sem motivo. lamento que tu tenhas optado ser saudade.
queria-te pedir para ficares, mas emudeci - ou emudeceste-me. mas mesmo que o destino seja feito de dubiedades, mesmo que nada de prescrito exista para nós há sempre a hipótese de sermos felizes... e o risco já não me atormenta nem me detém. contudo, não te procuro mais. deixo-te livre para que se a minha falta te inquietar me procures. o que é real, autêntico e verdadeiro fica. e se já foi, volta.