terça-feira, 10 de abril de 2012

somos

somos todos fragmentos estilhaçados, desesperados para nos encaixarmos na angústia ou felicidade de outros âmagos atarantados como nós.
vivemos em simbioses incertas, competindo como monstros insaciáveis; famintos de um tudo que se revela em nada ou quase nada.
falamos em controlo, razão e outros vocábulos que pretendem minimizar as nossas ânsias enquanto, na inocente ironia, os nossos olhos giram como relógios adiantados que voltam sempre ao mesmo lugar.
damos as mãos como quem entrelaça a alma, como quem une o que mais incorpóreo tem. falamos, travando o que realmente queriamos falar: enchendo o mundo de palavras soltas e perdidas, que gritam todo o amor e todo o ódio que já existiu... mas nunca se viu.
fingimos que nos abraços não nos fundimos. que aqueles segundos não se podiam estender eternamente até os nossos corações desistirem de ser trapezistas da vida... e continuaríamos presos. deixamos a porta do nosso espírito aberta, com a chave perdida na louca poesia de outrora... e os outros pedaços de outros, que em nós se foram apaziguando, fogem, caem, extinguem-se. escapam-nos entre os dedos, como água cristalina. e nós juramos com todo o fervor no sangue que fomos roubados, que essa porta foi arrombada e fechamo-la para sempre.
depois dizemos ser sós, pobres e tristes. triste é a nossa ignorante inconsciência.

domingo, 4 de dezembro de 2011

és o sol sozinho

''Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
Ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
E não partisses, assim, empurrando o vento
Com o coração aflito, sufocado de segredos

Se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
Para guardar o teu corpo

Se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
Onde o teu rosto se esconde no meu rosto
E a minha boca lembra a tua despedida,
Talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
Essa cor perdida nos teus olhos''
(Joaquim Pessoa)



tantas vezes tropecei na melifluidade das tuas palavras e me consumi no reflexo dos teus meneios. e outras tantas esmoreci em poeira gasta, com a voz queimada do ar que exalas. estudei o movimento das tuas pálpebras e a maneira como sacudias os lábios. estudei as tuas formas grosseiras e incompletas e as tuas mãos em chama. e quanto mais intenso tudo era, mais débil se elevava e se aproximava. como se tudo fosse cegueira, enfermidade. como se este cosmos nada mais fosse que juras e reflexões de um alienado coração, escondido na mudez da noite, à espera do teu rir. pensei achar o mundo nos teus olhos, toda a carne no teu corpo e todo o desejo no teu âmago. pensei seres o infinito. pensei seres toda a minha memória, toda a minha essência. ignorei as pulsações que se contorciam, os corpos emaranhados e os lábios calcados. 

agora és o sol solitário. resides somente em ti e declino acercar-me. quanto mais te olho, mais me ofusco. estamos à perfeita distância. se me aproximar, incendeio. se me afastar, congelo. se me desejares, destróis-te. contemplo-te sem te fitar e confundo-me com a sombra que me cedes. agora vejo o que nunca quis ver.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

lua cheia

''A lua está cheia, o que me fez pensar em ti. Pois sei que não importa o que estou a fazer, e onde estou, esta lua será sempre do mesmo tamanho da tua do outro lado do mundo''
(adaptado)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

opiáceo

posso-te subtrair às escondidas e levar-te como o meu refém privado?


já não me recordo da tua voz. está rasurada, morta e soa apenas como um grunhido emudecido. era a última realidade que de ti me sobrava. o teu grito. o teu clamor. a tua súplica. e o teu riso... aquele ruído morno e suave, uma sinestesia perfeita, a maior das metaforas. e eu que pedi ao tempo, que implorei à sua displicência que não a consumisse. que não me desistisse. que não assassinasse a lembrança do que mais me estremecia e dava existência. que não me abdicasse,não me descartasse.. sem a tua marca e a tua chama. mas ele levou-a. e com ela levou-te a ti. levou o teu sangue amargo e cítrico. apunhalou-me com o seu menosprezo, procurou moer-me o coração e levou a minha alma com ele. levou o que ainda me apertava ao teu âmago por fios incorpóreos que só vias quando olhavas para trás afadigado e moído, carente até. e era só um som. um estúpido som de tantos que a minha mente ecoa. um som nas reminiscências de tantos sonhos que ela pinta e imortaliza. um estúpido som, logo o único que pedi não esquecer. foi então que percebi que o tempo é um mero opiáceo que lentamente nos suga tudo o que planeámos jamais destruir.