quinta-feira, 14 de julho de 2011

opiáceo

posso-te subtrair às escondidas e levar-te como o meu refém privado?


já não me recordo da tua voz. está rasurada, morta e soa apenas como um grunhido emudecido. era a última realidade que de ti me sobrava. o teu grito. o teu clamor. a tua súplica. e o teu riso... aquele ruído morno e suave, uma sinestesia perfeita, a maior das metaforas. e eu que pedi ao tempo, que implorei à sua displicência que não a consumisse. que não me desistisse. que não assassinasse a lembrança do que mais me estremecia e dava existência. que não me abdicasse,não me descartasse.. sem a tua marca e a tua chama. mas ele levou-a. e com ela levou-te a ti. levou o teu sangue amargo e cítrico. apunhalou-me com o seu menosprezo, procurou moer-me o coração e levou a minha alma com ele. levou o que ainda me apertava ao teu âmago por fios incorpóreos que só vias quando olhavas para trás afadigado e moído, carente até. e era só um som. um estúpido som de tantos que a minha mente ecoa. um som nas reminiscências de tantos sonhos que ela pinta e imortaliza. um estúpido som, logo o único que pedi não esquecer. foi então que percebi que o tempo é um mero opiáceo que lentamente nos suga tudo o que planeámos jamais destruir.

domingo, 16 de janeiro de 2011

a guitarra, os teus dedos, os teus olhos

como odeio os teus olhos. essa curva de difícil compreensão que se inclina para quem olhas. como o sangue corre neles e grita tudo num só, nada num todo... não os consigo olhar e é por isso que adoro as tuas mãos. é por isso que recordo minuciosamente os teus dedos finos e como eles se movem. quando eles acariciam as cordas da guitarra e tu semi-cerras os olhos como se conseguisses sentir a textura da música.
sempre tive ciúmes da tua guitarra. e da tua crueldade. e da tua frieza. e de seres o mais forte. e de ti. do que conseguias ser sem te esforçar. do eco do teu sorriso e do timbre da tua voz. e de tudo o que não se encontra porque só pode ser teu.
quis ter tempo para te tocar, para memorizar todos os traços da tua cara ou os desenhos do teu cabelo de Outono .. quis tantas coisas, tantas. e quis-te a ti.
na verdade sempre soube que estás morto, que és fumo, poeira ou cinza negra. que és inalcançável, uma linguagem muda presa num lugar longe do meu alcance. e desta vez soube-o mais. como quando achamos que sabemos descodificar sinais, silêncios ou olhares e, afinal, errámos tanto. ou quando achamos que sabemos amar mas nem nos conhecemos.
agora.. agora somos estranhos que já se encontraram à distância de um respirar.
as notas das tuas melodias ouviram-se, uma última vez. e ouvi-te, toquei-te, senti-te. quis-te sem querer.. perdi-te de propósito. vi caminhos, escolhas. línguas, corpos, presenças. desespero com esperança em emergir. eu à espera de ti, tu à minha procura. os teus dedos finos. os teus olhos escuros. as palavras que não acabaste, as que nunca começaste... não as quis, de tanto as querer, e não te quis, de tanto esperar. odiei os teus dedos que encaixavam nos meus e adorei os teus olhos que já não queria ler.
a parte de mim que arrastavas contigo também morreu ali; melhor morta do que viva sem ti. do que arrastada por diversão ou esquecimento.
a música ecoou durante outros tantos segundos... infinitos... mas tão curtos. ficámos juntos naquele momento, com a eternidade à frente de nós.. e ambos a negámos.
consegui ter a tua crueldade. a tua frieza. ser tanto sem tentar. consegui-me desprender de ti.. acho.. porque quis partir a tua guitarra, que te roubava tanto de mim. porque quis abandonar a tua voz, o teu jeito de falar, o teu jeito de pensar, o teu irrealismo e a tua certeza. quis odiar tudo em ti e quis amar tudo um pouco.
acho que o segredo de ter alguém, é saber perdê-la.. deixá-la ir. digo isto porque acho que quando te deixei ir, foi o único momento em que te tive. e amar ... é sentir quando já não se tem, tal como eu te sinto, por vezes.
sempre acreditas-te que nada acontece sem uma razão.. eu também pensava assim. ironicamente ou não, foste tu que me tornas-te céptica a estas corridas com o tempo; nunca me conseguiste dar uma razão.. então eu deixei de acreditar que a razão exista. quando se ganha algo, perde-se algo. e quando se perde .. ganha-se. que diria a razão à cerca do que eu ganhei quando te perdi?
agora que a tua melodia caiu no sossego.. parte de mim vai sempre adorar os teus dedos e a tua guitarra.. e os teus olhos frios.. e a crueldade dos teus movimentos. parte de mim vai amar cada traço de ti, até mesmo aqueles que não consegui memorizar. e essa mesma parte vai admirar como há recantos e partes de nós que se encaixam como um puzzle e tu nunca te apercebeste disso. parte de mim vai-se rir de quantas vezes já repeti os teus olhos, os teus dedos e a tua guitarra.. e como não me cansei.
parte de mim vai esperar que um dia me despertes, ou que um dia me adormeças de vez. parte de mim vai ter saudades tuas.. a outra vai despedir-se e não vai querer olhar para trás.. porque a vida, .. a vida é minha e não tua.
amo-te por metade, digo adeus por outra.
adormeci nos teus braços.. por favor, deixa-me dormir mais um pouco. não me acordes agora.. talvez, silenciosamente, te peça: não me acordes nunca mais, amor.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

em ti

hoje escrevo embriagada. sinto-me como numa roldana giratória, com o sangue afogado em inexistências. com um medo de nós, com um medo de tudo. como um passo a mais que foi de menos. irónico. naufrágio do meu ser. morte de anseios de um nós mal enforcado. uma ceguês doente. 
as mãos que se entrelaçaram e se esquecem. as almas que se cruzam e depois morrem. um sonho que nada era. o teu sonho que era tudo. a vida num segundo, um segundo numa vida. quem se atreveu e se queimou, quem se queimou e se deixou arder. um desligar de emoções, uma imperfeição perfeita para nós. um delinear do que nunca quiseste em função do que és. uma espingarda juntos dos teus olhos, que expulsas com o medo de expulsar. os toques. os teus toques. aqueles que te tocam. a vida que te toca. a vida que te arranca. a vida que te empurra. a força que te ergue. a força que tu congelas e eu derreto. os cabelos que arrancas e a pele que rasgas em busca do teu coração. as veias que desenhas porque não sabes existir. as veias que não existem mas tu sabes que se movem. que te movem. que te fazem o que não és e o que não tens.
como eu olho para ti. como o teu frio se entranha em mim. como o nada que dás é um tudo para quem te ama. para quem te procura entre pedras, calçadas e fantasmas do passado. 
como quando estavas. quando eras o que desaprendeste a ser. quando sentias e eras humano. quando éramos humanos. quando não éramos monstros, lendas. imagens desfocadas que o vento não cuidou. que a água molhou. que o céu negou e o teu pequeno inferno pessoal provocou. e respiravas. oxigénio e não fumo. e não te intoxicavas no suor do teu correr. não eras letal. não eras pouco senão muito. e corrias os meus cabelos com a tua alma. incendiavas-me com o teu calor. e eu era tua. e sou tua. mas completa. não rasgada e sem voz. não escondida no que não me esconde. mas viva no teu viver. a viver na tua vida. por vontade. com garra. com o teu sarcasmo crónico, com o teu amor inteligente. e o teu suspiro adormecia-me, beijava-me o sono e os sonhos.
agora és fumaça. vapor. humidade. entranhas-te mas não te sinto. não me adormeces. fatigas os meus sonhos. cansas a minha sombra e matas os meus olhos. eu sópro para que desapareças mas, sem querer e porque não há querer, sópro a minha alma e ela vai contigo. e dá a volta ao mundo. dá a volta a ti. fica em ti. vive em ti. morrerá em ti.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

alma de neve

sei que és venenoso, como uma serpente de olhos de vidro e língua cansada. sei de cor a tua boca amaldiçoada e o teu corpo invisível. e já provei o teu suspiro letal que corre nas minhas veias dilaceradas, como um transe animal e desumano, e me aproxima de ti em distâncias absurdas.
quero-te. um pouco mais perto. a uma vírgula do meu sangue. vem, um pouco mais. até sentires o odor do anseio que espetaste em mim. olha para mim, com o brilho que escondes, e deixa-te vir neste tango de mel e sal. vamos entrelaçar o que nos separa e tu vais dizer que me amas enquanto eu sei que é mentira. vamos correr descalços e sobre vidros partidos até eu perder o ar e depois eu vou deitar a minha ingénua cabeça sobre o teu peito forte e incansável e vou contar o silêncio que se instala entre cada batida do teu coração. tu vais-me dar a mão e eu vou agarra-la insanamente sabendo que é a primeira e a última vez que a seguro. vou olhar para os teus olhos e vou reparar em linhas e cores que nunca mais ninguém viu e vou memorizar a distância de cada traço que te define. vou saber o porquê de cada marca que a vida riscou em ti e vou saber o porquê de cada gota que derramaste. vou soltar a tua mão e algemar o teu corpo a mim, deixar-nos rolar pela relva húmida e triste deste melancólico Outono. vou-te salpicar com as minhas lágrimas e tu vais-te rir porque sabes que és tudo o que quero e a cor da minha alma. e depois, enquanto me envolves numa concha fechada, eu vou adormecer sem esquecer que, quando acordar, já estarás bem longe de mim. que vou ficar sozinha, deitada na mesma relva onde rebolámos, afogada nas mesma lágrimas com que te salpiquei, sobre as mesmas estrelas em que me embalaste. e vou saber que nunca te dei a mão, nem nunca adormeci com o teu calor. vou saber que nunca serás uma realidade para mim, mas que és o que dela mais se aproxima. vou saber que não te posso deixar de amar, porque te tenho debaixo dos braços.